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Clientes, reguladores, investidores e funcionários estão solicitando às empresas do setor agrícola maior transparência na prestação de contas da segurança alimentar, desde o cultivo dos alimentos até o seu consumo. As lições que elas aprenderão serão vitais, especialmente para empresas de consumo e varejo conforme estas buscam construir maior confiança e efetiva transparência nas suas cadeias de valor.

“Não consigo acreditar que eles ainda estão enviando pessoas com pranchetas e lápis para auditar minha fábrica”, suspirou um executivo de fabricação de alimentos recentemente. “Recebemos quase 20 visitas anualmente, algumas locais, outras do exterior. No entanto, todos estão essencialmente fazendo as mesmas perguntas e carregando as mesmas pranchetas. É uma loucura. Deve haver uma maneira melhor.”

Ele não é o único que deseja encontrar um jeito eficaz de gerenciar a transparência na cadeia de suprimentos. No mundo todo, a pressão sobre as organizações para que estas aprimorem a rastreabilidade e a transparência de suas cadeias de suprimentos é enorme. E poucas estão sob pressão tão intensa quanto a cadeia alimentícia – é justamente por isso que ela pode ser uma excelente fonte de ideias, experiência e inspiração para empresas de consumo e varejo.

Mais transparência, por favor!

As pressões que motivam a demanda por maior transparência na cadeia de suprimentos de alimentos não são muito diferentes daquelas que afetam outros setores. A cadeia de valor do setor agrícola é grande e complexa, abrangendo desde as sementes e os insumos que abastecem as fazendas até os distribuidores e varejistas que vendem os produtos aos consumidores.

Portanto, não chega a ser surpreendente que os consumidores sejam uma grande força motriz na busca por maior transparência em toda a cadeia de valor do agronegócio. As expectativas dos clientes estão mudando rapidamente e os temas relacionados à agenda ambiental, social e de governança (ESG) exercem influência cada vez mais significativa na decisão de compra.

Os clientes querem saber se os produtos que estão comprando foram cultivados de maneira sustentável, ética e segura; tendem a rejeitar marcas que não pratiquem o comércio justo ou que não adotem políticas claras de rejeição e prevenção à escravidão moderna e às mudanças climáticas; e, uma vez que consomem os alimentos ou os servem às suas famílias, eles têm padrões particularmente elevados em relação à qualidade, segurança e rastreabilidade.

Conforme demonstra o nosso relatório recente sobre o futuro do varejo, o consumo está sendo impulsionado por seis fatores principais: valor, conveniência, experiência, escolha, propósito e segurança/privacidade. Como parte desse processo de decisão, os consumidores querem entender a procedência completa dos produtos que adquirem, especialmente no setor de alimentos.

A pressão está aumentando

Investidores e acionistas também estão começando a pressionar na medida em que adicionam aspectos ESG às suas decisões de investimento e buscam meios de direcionar sua influência de investimento para a defesa de uma maior transparência nas métricas de mensuração e comparação de ESG, bem como na forma como esses elementos são reportados. Conselhos e acionistas ativistas estão fazendo perguntas difíceis à administração. Espera-se que, cada vez mais, as organizações prestem contas publicamente acerca dos seus impactos, por meio de relatórios integrados.

Os órgãos reguladores e governos têm se apressado em acompanhar o sentimento público (o foco recente do Greenpeace na cadeia de suprimentos de carne bovina da Tesco sugere que as ONGs também estão se tornando mais ativas). Novas regulamentações estão sendo promulgadas para o setor de alimentos em todo o mundo. Até os governos municipais estão começando a exigir transparência sobre o que ‘local’ realmente significa. Cientes de que muitas promessas não foram cumpridas no passado, eles estão ansiosos para encontrar maneiras mais confiáveis, eficientes e precisas de monitorar e rastrear itens na cadeia de suprimentos.

A hora da mudança

Com o aumento da pressão de todos os lados, muitos produtores e varejistas de alimentos também estão começando a reconhecer que suas abordagens tradicionais para fornecer transparência já não são adequadas.

Em parte, isso ocorre porque muitas cadeias de suprimentos estão se tornando mais complexas. Durante a pandemia, o funcionamento das cadeias de suprimentos foi impactado, e assistiu-se à intensificação da demanda dos clientes por produtos alimentícios produzidos localmente. Neste contexto, muitos varejistas de alimentos viram-se forçados a diversificar e a ficar próximos de suas cadeias de suprimentos. A expectativa de que a transparência se estenda da lavoura ao consumidor implica no rastreamento de itens nas dezenas de milhares de fornecedores que compõem toda a cadeia de valor. Para itens com cadeias de valor extensas, a complexidade pode ser estonteante.

Abordagens tradicionais para obter transparência também são inadequadas para atender às demandas de dados de reguladores, investidores e clientes que anseiam por informações granulares e objetivas em um formato padronizado. A transformação dos “dados de pranchetas” em bancos de dados, além de exigir muitos recursos, é ineficiente e ignora todo o valor que poderia ser gerado pela análise dos próprios dados.

Os eventos dos últimos 18 meses também demonstraram que as abordagens tradicionais não são suficientemente flexíveis para acompanhar as expectativas de uma rápida transformação. E, embora a demanda por transparência seja global, em geral ela se manifesta localmente.

As expectativas dos clientes igualmente tendem a se mover mais rápido do que as ações dos reguladores. Por isso, ater-se a uma abordagem de compliance básica não é o bastante no ambiente atual.

Como observou o executivo citado no início deste documento, as abordagens atuais tendem a ser extremamente ineficientes. Não se trata apenas da disrupção causada por um desfile interminável de auditores no chão de fábrica. A maneira como os dados são coletados, gerenciados e analisados está repleta de processos manuais e oportunidades para erros ou enganos. Infelizmente, as tentativas históricas de trabalhar com a cadeia de valor visando impulsionar a eficiência muitas vezes foram vistas como uma ‘destruição’ em vez de uma ‘colaboração’, o que gerou certa desconfiança.

É aqui e agora

O tema certamente está ganhando espaço na agenda executiva do setor de consumo e varejo. Os profissionais da KPMG atendem ligações frequentes de clientes deste segmento em busca de conselhos sobre como melhorar a transparência da sua cadeia de suprimentos. Nos setores agrícola e de alimentos, buscamos, juntamente com os fabricantes, meios de mostrar com toda a transparência a trajetória do produto, da fazenda até o consumidor. Com as grandes redes de supermercados, trabalhamos para atender à demanda por rastreabilidade e garantir a segurança alimentar no varejo.

Em todo o setor de consumo e varejo (e além), estamos trabalhando com líderes, reguladores, fornecedores e provedores de tecnologia para transformar o modo como os aspectos ESG são coletados e reportados. As organizações de consumidores e varejistas, por sua vez, precisam demonstrar sua adesão a uma série de outras questões importantes, incluindo o uso de mão de obra escrava, a prevenção de conflitos e o comércio justo.

Desenvolvemos ferramentas e tecnologias valiosas que respondem a pontos problemáticos específicos que as organizações enfrentam enquanto buscam maior transparência. A KPMG Origins, por exemplo, é uma ferramenta de monitoramento e rastreamento baseada em blockchain, permitindo que as empresas reportem dados relevantes com segurança (informações coletadas por sensoriamento remoto nas fazendas, provas de segurança alimentar e controles digitais de temperatura durante o transporte) para consumidores e clientes. Essas abordagens ajudam a aumentar a eficiência no desembaraço aduaneiro e nos pagamentos.

Desenvolvemos um previsor da cadeia de suprimentos que cria uma visão dupla digital em tempo real da cadeia de suprimentos de uma organização com base em dados internos e externos, possibilitando que os tomadores de decisão simulem vários cenários de negócios para ajudar a navegar pela sua cadeia de suprimentos com maior precisão, reduzindo os riscos e custos. Usamos o planejamento da demanda para ajudar a reduzir o desperdício e gerenciar a escassez de matérias-primas. Adicionalmente, criamos abordagens e estruturas de relatórios integrados que geram a confiança das partes interessadas.

Provedores de software especializados, como a ChainPoint (uma aliança da KPMG), são experientes na oferta de ferramentas de coleta de dados digitais online/offline em telefones celulares. Essas ferramentas tecnológicas possibilitam a coleta de dados em áreas rurais remotas sem acesso à Internet e todos os tipos de modelos de rastreabilidade, como book & claim, balanço de massa, segregação e preservação da identidade.

Mais do que expor a nossa ampla experiência e as tecnologias e alianças valiosas de que dispomos, desejamos demonstrar que temos como oferecer uma melhor abordagem para a transparência na cadeia de suprimentos alimentícios. Queremos, ainda, ressaltar que há tecnologias e práticas líderes a serem aprendidas, bem como ferramentas que podem acelerar o tempo para obtenção de valor. 

Aqui está o que aprendemos

Nossa experiência nos ajudou a identificar cinco áreas principais nas quais todas as organizações de consumo e varejo (não apenas empresas de alimentos e agrícolas) devem se concentrar para poderem transformar suas abordagens atuais de transparência e rastreabilidade na cadeia de suprimentos.

  1. Entenda por que você está fazendo isso. Comece identificando o que você deve mensurar e por quê. Avalie os motivos pelos quais você deseja que seus clientes o conheçam. Reflita sobre as várias partes interessadas que consumirão os dados e como eles serão comunicados. Olhe para a conformidade (compliance) como o ponto de partida; já as expectativas do cliente devem ser a sua meta.
  2. Adote uma abordagem baseada no risco. Considere como a transparência é priorizada no seu registro de riscos. Entenda o equilíbrio entre compliance, risco, finanças e expectativas do cliente. Identifique as áreas de maior risco e concentre o seu investimento nos pontos de maior preocupação (para você, seus clientes e demais stakeholders). Por exemplo, no setor agrícola, os critérios comuns vão da segurança alimentar aos riscos de direitos humanos.
  3. Gerencie seus dados. Procure oportunidades de digitalizar e automatizar seus dados (lute para banir as pranchetas). O acesso digital a fornecedores remotos é fundamental, não apenas para assegurar dados mais granulares em áreas importantes, mas também para ajudar seus fornecedores a prosperar (no setor agrícola, isso pode significar fornecer serviços digitais aos agricultores, tais como: previsão do tempo; dados de plantio; treinamentos online; acesso a insumos e mercados; pulverização via drones; e até o microfinanciamento, de modo a garantir fornecimento sem interrupções ao longo do tempo. Comece identificando seus requisitos de dados internamente e em toda a sua cadeia de valor. Entenda como esses dados precisarão ser integrados para extrair os insights de que você, seus fornecedores, clientes e sua cadeia de valor precisam para aumentar a excelência operacional e fornecer o que as partes interessadas exigem.
  4. Alinhe seus sistemas. Mapeie seus sistemas e interdependências atuais. Integre-os ao seu sistema de ERP. Identifique os problemas existentes e as oportunidades de melhorias. Reestruture processos e sistemas, de modo a remover erros históricos ou tendenciosidades. Explore de que maneira tecnologias como o blockchain podem ajudar a aumentar a confiança nos seus dados. Para obter escala rapidamente, procure um software comprovado que seja oferecido com várias soluções de rastreabilidade predefinidas, um modelo de dados robusto e alta configurabilidade.
  5. Melhore os relatórios. Entenda como as tendências de relatórios estão evoluindo e como a mudança para relatórios integrados afetará sua organização. Avalie como você reportará seus dados, com base em quais normas e utilizando quais canais. Considere como os relatórios podem ser utilizados para gerar vantagens competitivas e diferenciação para o seu negócio.

Trilhando um caminho melhor

Em última análise, a direção para uma maior transparência na cadeia de suprimentos resume-se à confiança: confiança nos dados; confiança na cadeia de valor; confiança entre empresas e partes interessadas; confiança na comunidade; e confiança na relação com os reguladores. A confiança é tão fundamental para a segurança alimentar quanto para os relatórios de ESG: é este sentimento que concede às organizações de consumidores e varejistas sua licença para operar. Ela é o principal resultado que todos os recursos devem buscar prioritariamente.

Acreditamos que, ao focar as principais áreas, como risco, dados, sistemas e relatórios, as organizações de consumidores e varejistas de todos os tipos podem efetuar avanços significativos na construção da confiança em suas cadeias de valor. As tecnologias, os dados e os modelos são testados e estão disponíveis. Os benefícios são claros e a pressão por mudança é inegável.

“Deve haver um caminho melhor”, comentou o executivo do setor agrícola. Certamente há. E podemos mostrar como trilhá-lo e chegar ao destino almejado.

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