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Investimento em tecnologia: uma nova prioridade na América do Sul

Investimento em tecnologia: América do Sul

Luis Motta, sócio-líder de Tecnologia, Mídia e Telecomunicações da KPMG na América do Sul.

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Investimento em tecnologia

De acordo com uma das principais pesquisas globais feita com líderes de tecnologia, a CIO Survey 2020 [1], da KPMG e Harvey Nash, a crise global desencadeada pela pandemia impulsionou um dos maiores crescimentos da história em investimentos na área de tecnologia. De modo geral, e com base nas respostas dos CIOs respondentes, o estudo revelou que os gastos destinados à área de Tecnologia da Informação (TI) aumentaram 5% em média durante os três primeiros meses da pandemia, conforme as organizações foram forçadas a mudar suas estratégias de vendas, investir em segurança cibernética e migrar grande parte da sua força de trabalho para o esquema remoto - uma tendência que os CIOs esperam que aumente no futuro imediato e se torne parte da nova realidade. De fato, o avanço não planejado neste tipo de investimento tem sido tão importante que muitas organizações se surpreenderam, o que tem levado os CIOs e CFOs a gerar e fornecer dados que corroborem ou justifiquem os gastos realizados. Na América do Sul, região em que mais de 260 CIOs participantes da pesquisa se identificam com empresas que alocam um orçamento de TI de no máximo US$ 9 milhões por ano, o crescimento dos custos com ativos de tecnologia foi significativo e, inclusive, de acordo com a CIO Survey, superior à média global (11% aproximadamente). Essa tendência também se refletiu nos resultados de outra pesquisa que a KPMG realiza anualmente: o CEO Outlook 2020 [2]. Segundo o estudo, 61% dos executivos sul-americanos e 67% dos CEOs das principais economias do mundo garantem que estão destinando a maior parte dos seus investimentos à compra de tecnologia tanto como parte do processo de transformação que devem realizar mediante as condições impostas pela nova realidade, quanto como a reorientação da sua estratégia de desenvolvimento. 

A preocupação das empresas com a segurança cibernética explodiu paralelamente ao crescimento da dependência tecnológica. Embora os crimes cibernéticos já tivessem sido destacados pelas organizações como uma das principais ameaças globais antes do início da crise de covid-19, o World Economic Forum (WEF), na última edição do seu estudo anual sobre riscos globais [3], acentuou o papel dos ataques cibernéticos como um dos riscos a serem enfrentados juntamente com outros tópicos importantes, como os desastres naturais e climáticos e os aspectos políticos. Estes fatores e o investimento em segurança cibernética na fase de recuperação econômica pós-pandemia tornaram-se uma prioridade para a maioria das organizações independentemente do setor de atuação. Essa realidade fica ainda mais evidente quando os resultados da CIO Survey 2020 são analisados, pois 41% dos líderes em tecnologia mundiais e 46% dos sul-americanos afirmaram ter registrado um incremento substancial dos ataques cibernéticos durante o surto de coronavírus, especialmente na forma de phishing, malware e DDoS (denial of service attack).   

Como resultado deste cenário ou do “novo normal”, o crescimento aumento da demanda por profissionais qualificados de segurança cibernética é algo sem precedentes, transformando este skill ou habilidade em um dos mais procurados globalmente e, também, no âmbito regional, visto que 87% dos líderes de tecnologia sul-americanos “concordam” ou “concordam totalmente” que, em decorrência das novas condições no contexto comercial e no trabalhista, a superfície viável de ataques ficará mais exposta ao crime cibernético. Talvez por isso, a maioria dos CIOs em nível global e regional prevê uma ampliação considerável no número de especialistas capacitados na área de TI, e que, nos próximos cinco anos, as novas funções profissionais acabarão compensando as posições cobertas pela automação; um presságio compartilhado por 70% dos CIOs globais e 81% dos CIOs sul-americanos. No entanto, é válido destacar que, de acordo com a mesma pesquisa, um alto nível de escassez de “talentos e capacidades tecnológicas” persiste. Assim, além da expertise relacionada à segurança cibernética, as próximas três habilidades tecnológicas mais escassas na opinião dos CIOs são: a gestão da mudança organizacional, a arquitetura corporativa e a arquitetura técnica e a análise avançada de dados (advanced analytics). No contexto regional, cerca de 60% dos líderes entrevistados na América do Sul observaram, antes e após o início da pandemia, uma notória falta de capacidades tecnológicas que, em último caso, pode afetar a recuperação das empresas e o seu crescimento futuro.

Apesar de revelarem um aumento expressivo nos gastos destinados à tecnologia durante a pandemia, os resultados da pesquisa sugerem que o orçamento de TI das empresas fique sob pressão ou comprometido no próximo ano, já que o percentual de CIOs que esperava algum aumento no budget da sua área nos próximos 12 meses caiu de 51% para 43% com o início da crise. Na América do Sul, a tendência foi replicada, pois apenas 48% dos líderes em tecnologia esperam um avanço do orçamento no próximo ano, quando, antes da covid-19, esse número era de 57%.

A pesquisa destaca um incremento claro nos níveis de influência dos CIOs nas decisões das empresas. Embora 61% dos entrevistados afirmem que a participação dos líderes de tecnologia nos conselhos de administração continue diminuindo, quase dois terços da amostra global (61%) e 77% dos CIOs sul-americanos asseguraram que a pandemia aumentou sua influência de modo considerável e permanente - resultado que sugere que os líderes mundiais de tecnologia estão encontrando outras maneiras de elevar sua relevância sem a necessidade de participar do board das organizações.

A nova realidade convida os países da região a reconhecer o valor da segurança cibernética como um elemento crucial para promover seu desenvolvimento. Ainda que haja muito a ser feito, a maioria das organizações está adotando estratégias diferentes para impulsionar a segurança cibernética, assim como priorizá-la, alocando um número maior de recursos para aprimorar essa “prática” e em taxas consideradas “inusitadas” para os últimos dez anos - decisão que inclui um maior investimento em tecnologia e no recrutamento e na retenção de talentos. Nesse sentido, pode ser interessante analisar algumas das considerações ou tendências emergentes em segurança cibernética que a KPMG abordou em um estudo [4] realizado antes da pandemia - contudo, que não perdeu sua validade por esse motivo - e que poderia ser um “roteiro” para entender por onde os setores público e privado da região devem começar para enfrentar suas preocupações de segurança com sucesso. Dentre as principais, é possível destacar: o alinhamento dos objetivos de negócio com o imperativo de segurança (como princípio básico para determinar o nível ideal de gastos nesta área; a otimização da experiência digital do consumidor (o que implica reduzir os obstáculos que uma maior segurança cibernética geralmente impõe); e a necessidade de dar mais espaço de desenvolvimento à equipe de segurança, uma decisão que implica no aumento da participação de profissionais nas decisões das empresas e no seu nível de influência (realidade já observada no âmbito global e regional, como revelam alguns dos resultados discutidos anteriormente).

Mesmo quando os indicadores de desenvolvimento tecnológico da região - como o nível de disseminação da internet, o número de computadores por residência e a quantidade de assinaturas de linhas móveis - atingem valores que, em média, são inferiores aos registrados em outros mercados ou locais mais avançados, nos últimos anos tem ocorrido uma melhora gradual no investimento em infraestrutura tecnológica e um aumento substancial nas iniciativas para fortalecer a segurança cibernética em quase todos os países latino-americanos. Essas “necessidades”, que já eram evidentes diante dos novos padrões impostos por uma economia globalizada e altamente dependente da tecnologia, só foram exacerbadas no “novo normal” e, principalmente na fase de recuperação econômica pós-pandemia. Paralelamente e conforme destacado em um relatório do Banco Interamericano de Desenvolvimento [5], é importante que os governos da região “eduquem” seus cidadãos sobre os riscos associados à conectividade e à alta dependência tecnológica, bem como no que tange à segurança cibernética que o usuário adquire como a primeira linha de defesa. Estas iniciativas permitem aumentar a conscientização acerca dos riscos cibernéticos e promover o desenvolvimento de soluções que aprimorem a resiliência de um país para o novo cenário. Ademais, os esforços devem continuar para integrar as regulamentações sobre crimes cibernéticos ao marco legal vigente. Este elemento é fundamental em um processo social que reconhece o problema, mas, principalmente, para habilitar os recursos e meios necessários para combater este tipo de crime com eficácia. É encorajador que o tema “segurança cibernética” esteja ocupando um lugar de destaque nas pautas dos países da região, que, por sua vez, estão traduzindo essa relevância em medidas que visam diretamente estabelecer economias hiperconectadas, seguras e resilientes.

 

 

[1] “The Harvey Nash/KPMG CIO Survey 2020”. KPMG International e Harvey Nash, 2020.

[2] “CEO Outlook 2020”. KPMG International, agosto de 2020.

[3] The Global Risks Report 2020”. World Economic Forum (WEF), 2020. 

[4] “All hands on deck: Key cybersecurity considerations for 2020”. KPMG, 2020.

[5] “Ciberseguridad ¿Estamos preparados en América Latina y el Caribe?”, Banco Interamericano de Desarrollo, Observatorio de Ciberseguridad en América Latina y el Caribe, pág. 115, 2016.

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