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CEO Outlook 2020: resultados relevantes para a América do Sul

CEO Outlook: resultados relevantes para América do Sul

Por: Charles Krieck, presidente da KPMG no Brasil e na América do Sul

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CEO Outlook 2020

O CEO Outlook, pesquisa realizada anualmente pela KPMG International, traz em sua edição de 2020[1] um retrato preciso do que os CEOs globais, regionais e locais pensam sobre os diferentes aspectos que afetam o desenvolvimento de suas empresas, assim como os desafios que enfrentam e as estratégias empregadas para planejar com sucesso o crescimento de suas organizações nos próximos anos. Esta edição do CEO Outlook também acrescentou um novo capítulo dedicado à análise dos impactos da covid-19 no desempenho empresarial, os quais foram provocados pelas medidas de isolamento que grande parte dos países recorreu para conter a doença e reduzir a “curva de contágios”.

Embora 1.300 CEOs das principais economias do mundo, sendo Alemanha, Austrália, Canadá, China, Espanha, Estados Unidos, França, Índia, Itália, Japão e Reino Unido (que denominaremos neste artigo como grupo global e/ou mundial), e cerca de 270 executivos sul-americanos - Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Peru, Uruguai e Venezuela - tenham sido entrevistados inicialmente, o impacto do coronavírus foi tão expressivo para as perspectivas de desenvolvimento econômico global que a KPMG decidiu realizar novas entrevistas entre julho e agosto de 2020, desta vez, com 315 CEOs das principais economias mundiais e 80 de nossa região. O objetivo era o de compreender como a visão dos executivos mudou durante a crise, bem como oferecer, na versão final do estudo, um panorama atualizado do impacto da covid-19 no cenário empresarial.

A pandemia representa uma das crises mais profundas dos últimos 50 anos em todo o mundo. O Fundo Monetário Internacional (FMI) estimou, em uma de suas últimas revisões sobre o desenvolvimento econômico global[2], que a desaceleração do PIB mundial chegará em torno de 5% até o final de 2020. A interrupção da atividade econômica em decorrência das ações restritivas para conter a propagação do vírus está causando efeitos econômicos adversos e perspectivas de crescimento desanimadoras para a maioria dos países, situação que impacta, sobretudo as nações mais pobres ou em desenvolvimento, que são as que geralmente estão em situação mais frágil e onde a pandemia agravou as crises preexistentes. No caso da América Latina e, especificamente, da América do Sul, a experiência observada em outras regiões possibilitou a adoção de estratégias e de medidas eficazes contra o vírus, contudo, ainda assim, não foi possível evitar o fechamento das fronteiras, do distanciamento social, das quarentenas compulsórias e da interrupção de grande parte da atividade econômica. Estas medidas, somadas à desaceleração da economia global, à contração dos preços internacionais de matérias-primas e ao aumento dos custos de financiamento, estão prejudicando severamente os países da região, incluindo suas perspectivas de desenvolvimento para o final de 2020, com um vislumbre de recuperação apenas para 2021.

Tendo em vista esse cenário, era previsível que as expectativas dos CEOs fossem afetadas entre o primeiro e o segundo ciclo de entrevistas, fato que se refletiu nas respostas obtidas, mas, especialmente no que se refere às expectativas em matéria de crescimento econômico global, local, setorial ou da própria empresa. Embora exista um percentual razoável de executivos que, mesmo durante a pandemia, acredita que seus países crescerão nos próximos 3 anos (46% dos CEOs sul-americanos e 45% do grupo mundial confirmam isso), a pesquisa revelou um aumento do pessimismo nas expectativas de crescimento tanto em termos de seu próprio país (38% e 29%, respectivamente) quanto global (50% e 32% na mesma ordem), em comparação com as respostas dadas pelos CEOs durante a primeira etapa de entrevistas (que ocorreu antes do início da pandemia). De modo geral, a pesquisa detectou que os CEOs sul-americanos têm maior confiança no crescimento de suas organizações (53%), mas são um pouco mais pessimistas no que se refere ao desenvolvimento agregado, o que talvez se justifique, visto que, como resultado direto da crise de saúde, as perspectivas de crescimento do PIB regional em 2020 estimadas por instituições como o FMI e o Banco Mundial (aproximadamente de -9%) são um pouco mais desalentadoras que as projetadas para o PIB global (-5%).

A pesquisa deste ano revelou, ainda, que a agenda dos executivos se concentrou em três assuntos que ocuparam o centro do complexo cenário ocasionado pela pandemia: o objetivo, a transformação digital e a discussão sobre questões ambientais, de sustentabilidade e governança (ESG na sigla em inglês). De fato, antes da pandemia, 72% dos CEOs sul-americanos (80% dos globais) tinham assegurado que os temas relacionados a ESG eram fundamentais para impulsionar o crescimento das empresas a longo prazo, questão que está fortemente ligada à reputação e ao objetivo das organizações e que se estende a outros pontos como inclusão, diversidade, transparência, ética e integridade. Tanto é assim que, durante o segundo ciclo de entrevistas, 71% dos CEOs (em ambos os grupos) confirmaram que procurarão conservar os ganhos em sustentabilidade alcançados durante a crise e incorporá-los à própria cultura da empresa.

Em paralelo, 45% dos CEOs sul-americanos (55% dos globais) já tinham afirmado durante o primeiro processo de entrevistas que as empresas deviam incorporar o objetivo como parte central de seu enfoque de desenvolvimento, entendendo que a construção de uma marca voltada para o cliente pode ser o maior benefício de possuir uma estratégia nesse sentido. Efetivamente, essa tendência acabou se aprofundando durante a crise, visto que 62% dos CEOs sul-americanos (66% dos mundiais) asseguraram utilizar o objetivo corporativo para impulsionar um conjunto de ações que ajudem a satisfazer as novas demandas e necessidades de todas as partes interessadas (stakeholders), ou que, neste cenário de crise, 67% dos sul-americanos (79% em nível mundial) estão sentindo uma conexão emocional mais forte com o propósito de sua organização.

Com relação aos principais riscos que enfrentam, além dos provocados pela covid-19, os CEOs sul-americanos destacaram, principalmente a mudança climática (24%) e a segurança cibernética (18%). No âmbito global, as maiores preocupações foram a falta de talento (20%) e os problemas relacionados à cadeia de fornecimento (18%). No entanto, é importante observar que os dois grupos mostram receio com o territorialismo - 14% nos dois grupos -, elemento que poderia complicar substancialmente o crescimento esperado das organizações ao criar novos obstáculos ao desenvolvimento a partir do aumento do nacionalismo, das tensões políticas globais e de um fluxo menor de bens e capitais.

Em termos de segurança cibernética, 57% dos CEOs sul-americanos (54% dos mundiais) já tinham assegurado, antes da pandemia, estarem cientes de que poderiam ser vítimas de um ataque cibernético, resultado que destaca a importância do investimento em tecnologia. Apenas 48% dos executivos sul-americanos (59% em nível global) disseram estar preparados para enfrentar essa realidade, o que, de certa forma, mostra o quanto a região está longe de se blindar completamente contra esses ataques, os quais sem dúvida aumentarão em função da maior dependência tecnológica a que as organizações estarão sujeitas de agora em diante.

Outra consequência da pandemia foi que, devido às medidas de isolamento, as pessoas tiveram de se adaptar, mudar hábitos e realizar muitas de suas atividades de maneira remota, especialmente as compras, o lazer e o trabalho. Por essa razão, as organizações tiveram de seguir um caminho paralelo ao das pessoas e acelerar as mudanças e o investimento em tecnologia. Assim, 61% dos executivos da América do Sul (67% dos mundiais) disseram destinar a maior parte de seus investimentos à aquisição de tecnologia e à inovação como parte do processo de transformação tecnológica e da estratégia para atingir seus objetivos. Os demais executivos afirmaram investir no desenvolvimento das capacidades da força de trabalho, o que também faz parte de uma decisão estratégica.

Esse processo teve como consequência a aceleração de uma tendência que já vinha sendo observada na maioria dos setores, gerando mudanças significativas em poucos meses. Nesse aspecto, 32% dos CEOs sul-americanos (30% do grupo global) afirmaram que tanto a digitalização das operações quanto o modelo operacional das empresas tiveram de evoluir e se transformar drasticamente por causa da pandemia, fazendo progressos que levariam anos para ser atingidos. Um percentual de 61% dos executivos sul-americanos afirmou que, em questão de poucos meses, foram feitos avanços sem precedentes na criação de novos modelos de negócio puramente digitais e no surgimento de novas fontes de renda para as empresas. Ao mesmo tempo, a contratação de pessoal apto para o manejo dos sistemas de automatização e inteligência artificial aumentou de forma significativa para 57% dos CEOs sul-americanos (61% do grupo global), tanto que para 23% dos executivos da América do Sul (33% dos mundiais), o alcance desses resultados exigiu a superação de obstáculos importantes, como a falta de visão a respeito de futuros cenários operacionais (por exemplo, como serão os modelos de trabalho no futuro?) ou a necessidade de tomar decisões complexas rapidamente a respeito de tecnologia e sua implementação em nível de escala (em muitos casos, ignorando ou encurtando os testes-piloto).

Por fim, embora a diversidade e a inclusão sejam temas presentes na agenda das empresas, 79% dos CEOs sul-americanos (70% em nível global) já tinham argumentado antes do início da pandemia que existia um atraso importante no assunto, situação que certamente se aprofundará, tendo em vista a mudança de prioridades que pode surgir com a crise de saúde. Não é pequena a quantidade de CEOs tanto em nível regional (47%) quanto global (57%), que, para facilitar sua implementação e promover a diversidade, recomendam uma readequação dos sistemas de cotas e metas, deixando claro, ao mesmo tempo, que o principal benefício de uma organização inclusiva é o poder de atrair talentos, especialmente os Millennials e os da geração Z.

Seriam necessárias várias páginas para cobrir todos os aspectos abrangidos pelo CEO Outlook 2020. Embora aqui estejam detalhados alguns dos resultados mais importantes, pode-se dizer que, quando avaliados em conjunto, eles oferecem um quadro bastante preciso de qual é a visão dos CEOs, dos desafios que eles esperam e de suas expectativas de curto e médio prazo, especialmente diante da crise global imposta pela pandemia, a qual sem dúvida alterou os planos de desenvolvimento que eles haviam traçado para suas empresas no início deste ano. Esse ponto de vista é, além do mais, um aspecto-chave que os países da região deveriam considerar tanto para o planejamento de suas estratégias para sair da crise quanto para a fase de recuperação, visto que são as empresas e o capital privado, em geral, os principais determinantes ou "contribuintes" da produtividade, do investimento e do crescimento econômico das nações.

 

[1] “CEO Outlook 2020”. KPMG International, agosto de 2020.

[2] “World Economic Outlook Update: A Crisis Like No Other, An Uncertain Recovery”. Fundo Monetário Internacional, junho de 2020.

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