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O setor de Serviços Financeiros frente ao surto de Covid-19 e o impacto nos investimentos em capital de risco

Setor de Serviços Financeiros e o surto de Covid-19

Por Ricardo Anhesini, sócio-líder de Private Equity da KPMG na América do Sul

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Serviços financeiros

A pandemia afetou todos os setores produtivos e, de alguma forma, é possível afirmar que o mercado de Serviços Financeiros foi especialmente impactado. Apesar de o setor Bancário ter se beneficiado de um processo de mudanças, o qual vinha sendo implementado gradativamente antes da pandemia por meio de novas formas de distribuição de produtos, além do aumento da digitalização e de novas tecnologias, o impacto da Covid-19 superou qualquer previsão possível. É importante lembrar que, em geral, os bancos e as instituições financeiras são uma das principais ferramentas à disposição dos governos mundiais para que as políticas que visam mitigar o impacto econômico do surto fluam corretamente para seus destinatários - como novas linhas de crédito subsidiadas que a maioria dos países está implementando em diferentes níveis. Cabe ressaltar que a intermediação financeira desempenha um dos papéis mais relevantes para o desenvolvimento dos países em períodos normais, pois a sua atividade é dedicada à captação de recursos (poupança) que, em grande parte, são oferecidos como investimento produtivo. Diante da atual situação, a atividade financeira mostra-se ainda mais imprescindível.

Embora os analistas avaliem que o setor esteja preparado para apoiar os programas de estímulo fiscal e monetário que os governos vêm realizando, o esforço que deve ser feito por trás dessas medidas não pode ser esquecido. É fato que o sistema bancário não estava preparado para atuar de forma descentralizada e que a crise promoveu essa modalidade como a única opção viável para continuar operando. No entanto, esse novo arranjo também funcionou para reorganizar as prioridades do setor, visto que muitas das mudanças ocorridas nos últimos meses vieram para ficar, sobretudo, aquelas impulsionadas pelos usuários, como o teletrabalho e os pagamentos online que farão parte do chamado “novo normal”. Nesse sentido, é válido destacar que o setor Bancário deve convergir com maior velocidade para a automação extrema e para um status puramente digital que lhe permita atuar 24 horas por dia, 7 dias por semana. Esse ponto se torna mais relevante quando entendemos que hoje todas as organizações são, em maior ou menor grau, empresas de tecnologia, especialmente no setor de Serviços Financeiros. A partir desta transformação, o departamento de Tecnologia da Informação (TI) deixa de ser uma área de apoio/satélite da nova organização para se tornar uma área vital, que deve estar à frente da atividade e pesar nas decisões da empresa. Da mesma forma, considerando que a confiança do cliente é fundamental para o sucesso das organizações, o investimento em novas tecnologias é decisivo para entendê-lo e se antecipar a ele, gerar fidelização, bem como criar uma oferta de produtos e serviços de acordo com as suas necessidades. Esses elementos são determinantes para que o setor Bancário supere esta etapa com eficiência, ainda mais quando se leva em conta que a previsibilidade de cenários oferecida no passado, agora, é questionada face a um ambiente em que os acontecimentos estão distantes das tendências e no qual as empresas são forçadas a viver fora dessa “segurança”.

Outro fator fundamental é sobre a gestão de riscos que é e sempre será uma questão crucial para as instituições financeiras, sobretudo, em situações desafiadoras como a atual. De acordo com um relatório recente da KPMG [1], a gestão de riscos é um componente importante para a governança e sustentabilidade de uma instituição financeira em períodos normais, intensificando-se em momentos de crise e gerando pressão adicional sobre os níveis de resiliência. De modo geral, os riscos que as instituições devem ser capazes de administrar nestes períodos são basicamente: de mercado, liquidez e crédito (todos têm alto impacto nas atividades). Enquanto o risco de liquidez surge diante de uma redução significativa no volume de negócios, os riscos de mercado e crédito estão relacionados à incerteza gerada por uma crise. Sobre este último ponto, é importante destacar que tanto o enfraquecimento da atividade econômica como as medidas de isolamento adotadas pelos países para mitigar o impacto sanitário e econômico da pandemia afetaram substancialmente os fluxos internacionais de capitais, bem como a disponibilidade de financiamento externo. Diante de um futuro incerto que parece se estender a cada dia (Quando a pandemia acabará? Quando as economias poderão voltar a produzir? Quando os fluxos de comércio serão retomados?), os investidores procuram se proteger do aumento do risco associado ao concentrar os fluxos de capitais em ativos mais seguros (como títulos do tesouro dos EUA), afetando no processo da disponibilidade de crédito internacional e, com isso, a taxa de criação de empresas, especialmente PMEs.

Ademais, um subsetor que pode ser analisado para melhor entender como a incerteza gerada pela pandemia está afetando os níveis de investimento global e a disponibilidade de financiamento - e especialmente interessante para a área de Serviços Financeiros - é o mercado de Venture Capital (investimento em capital de risco), que é uma fonte essencial de recursos para o nascimento de novas empresas, sobretudo, fintechs. Nesse sentido, um estudo da KPMG International [2] revelou que o investimento global neste subsetor sofreu uma queda de 6,6% no primeiro semestre de 2020 (em comparação com o mesmo período de 2019), passando de uma movimentação de US$ 136 bilhões (no primeiro semestre de 2019) para US$ 127 bilhões (no primeiro semestre de 2020). Paralelamente, o volume global de negócios diminuiu 34% no segundo trimestre de 2020, atingindo apenas 4.502 negócios, um número bem abaixo da média dos últimos cinco anos. Na América Latina e América do Sul, a queda nos níveis de investimentos destinados a este setor também foi perceptível. Por exemplo, Brasil e México contribuíram com cerca de US$ 720 milhões no primeiro semestre de 2020, o que representou menos de 1% do total global e uma queda de 32% em relação ao valor registrado no mesmo período de 2019 (quando, em conjunto, eles contribuíram com mais de US$ 1 bilhão). O investimento em capital de risco no Brasil caiu mais de 30% no primeiro semestre de 2020, enquanto o volume de negócios despencou 45% no segundo trimestre (de 57 negócios para apenas 32). É fato que a crise sanitária foi agravada por outros fatores preexistentes, típicos de países da região, como econômicos, financeiros e sociais, sendo que estes aspectos influenciaram no aumento dos riscos e geraram o retrocesso nos níveis de investimento.

Apesar deste cenário, os especialistas do setor garantem que a América Latina em geral, e em particular, a América do Sul (lembre-se que esta região abriga vários unicórnios e startups bem-sucedidas), continuam sendo mercados atrativos para este tipo de investimento, principalmente no âmbito das fintechs por conta da alta proporção da população desbancarizada da região. Embora os países da América do Sul não disponham dos meios e do espaço fiscal das economias mais desenvolvidas (o que permitiria um pacote substancial de medidas e estímulos fiscais e monetários e, assim, mitigar os impactos da crise e facilitar a recuperação econômica em todos os setores), a resiliência com que sua população costuma se destacar é uma qualidade extremamente importante e invejável para o mundo que virá e, sobretudo, para a fase de recuperação, em que tanto o setor Bancário como o investimento em capital de risco serão decisivos.

 

[1] "Implicações da COVID-19 sobre a gestão de riscos”. KPMG no Brasil, abril de 2020.

[2] “Venture Pulse Q2 2020. Global analysis of venture funding”. KPMG International, KPMG Private Enterprise, julho de 2020.

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