close
Share with your friends

COVID-19 - uma oportunidade de mudança para a América do Sul

COVID-19 - uma oportunidade de mudança

Os países da América do Sul estão implementando medidas que vão da flexibilização monetária para manter os mercados financeiros funcionando e a redução das taxas de juros ao aumento dos gastos fiscais para compensar a queda na atividade econômica.

Conteúdo Relacionado

earth

Em apenas cinco meses, as medidas de confinamento e distanciamento social que a maioria dos países do mundo está adotando como forma de combater e mitigar os efeitos sanitários da atual pandemia (ou de achatar a curva de contágio) ceifaram a vida de mais de 250.000 pessoas, além de gerarem uma crise econômica global que, com base nas estimativas feitas por organizações como o Fundo Monetário Internacional (FMI) ou a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), só pode ser comparada aos resultados da crise financeira global de 1930. As medidas de isolamento, que atualmente envolvem a imobilização e proteção de cerca de 50% do estoque global disponível de capital humano, significam a interrupção de grande parte da atividade econômica e do funcionamento das cadeias de valor na maior parte dos setores produtivos. Esse fato acaba sendo refletido em um choque de oferta sem precedentes históricos, afetando as perspectivas de desenvolvimento de todas as nações do mundo, sem exceção, mas principalmente as dos países menos desenvolvidos ou em desenvolvimento, dependentes do comércio internacional de matérias-primas, ou que já apresentavam crises econômicas e financeiras anteriores à pandemia. De fato, enquanto o FMI estima que a retração do PIB mundial até o final de 2020 será de 3%, na América Latina e na América do Sul essa queda pode ser maior, de cerca de 5%. 

Soma-se a isso a imprevisibilidade do evento, cujas probabilidades, tanto de remissão quanto de expansão, dependem de uma série de elementos de difícil mensuração, como o desenvolvimento epidêmico da doença, o impacto registrado em cada país, a eficácia das políticas de contenção (quarentenas obrigatórias? distanciamento social voluntário?), as condições sociais e econômicas anteriores (os países mais vulneráveis são um terreno fértil para a doença? ou são os países com a maior proporção de população adulta, como ocorre na Europa?), e o desenvolvimento de uma vacina ou terapia, como uma estratégia de defesa ideal contra a doença. Todos esses elementos e suas possíveis combinações resultam em uma série de cenários possíveis para os próximos meses e, com isso, desvios menores ou maiores em relação às projeções econômicas realizadas, aumentando os já elevados níveis de incerteza global e os efeitos negativos gerados sobre o mercado internacional de crédito. 

 Diante desse cenário, os países da América do Sul estão implementando medidas que vão da flexibilização monetária para manter os mercados financeiros funcionando e a redução das taxas de juros ao aumento dos gastos fiscais para compensar a queda na atividade econômica. Além disso, o setor privado, que é o destino de muitas das políticas públicas, contribui para esse processo com decisões que refletem a intenção clara de manter o tecido produtivo dos países de pé, à espera da recuperação. Nesse ponto, a resiliência e a flexibilidade que muitas empresas demonstraram em tempos de crise foram cruciais, permitindo que elas se adaptassem de maneira rápida e ágil às condições prevalecentes. A transformação digital, os novos modelos de gerenciamento para as cadeias de suprimentos, a omnicanalidade, a capacidade de descentralizar boa parte das decisões que as empresas devem tomar diariamente ou de manter sua força de trabalho ativa por meio do trabalho remoto, entre outros fatores, têm sido alguns dos elementos que marcaram essa etapa, e alguns deles chegaram para ficar, fornecendo um novo formato na maneira de fazer negócios. De fato, é provável que o cenário pós-pandemia exija um relacionamento mais focado no cliente, suas expectativas e experiências.

Com base no anteriormente exposto, um estudo realizado pela KPMG no Brasil1 analisou a realidade dos diferentes setores econômicos que compõem sua matriz produtiva, e os separou em quatro grupos ordenados de acordo com o nível de impacto do surto e a capacidade de adaptação às crises. Embora o trabalho tenha se concentrado na realidade desse país, a homogeneidade característica das estruturas produtivas dos países permite extrapolar os resultados gerais para a região. Particularmente, a análise confirma que, embora alguns subsetores pareçam assintomáticos, seja como resultado da mudança de comportamento do consumidor ou em função do peso da atividade na crise atual (como o comércio varejista on-line, a área farmacêutica ou a produção de alimentos), outros setores, como a produção de matérias-primas, o turismo, o transporte rodoviário, aéreo e a logística, são especialmente afetados pela desaceleração da atividade econômica local e pela recessão global. Em linha com esses resultados, países como Argentina, Peru e Colômbia, que em maior ou menor grau dependem de setores relacionados à produção primária ou ao turismo, estão seriamente limitados, uma vez que o processo de recuperação dessas atividades será, em média, mais lento, já que dependem crucialmente da demanda internacional e do afrouxamento efetivo das medidas de isolamento (obrigatórias e voluntárias).

Independentemente do anteriormente exposto, as medidas de cooperação internacional serão fundamentais na fase de recuperação, especialmente para a América do Sul. Embora o afrouxamento das barreiras comerciais e do controle de capitais possa favorecer o comércio internacional e a retomada dos fluxos de capital, as medidas de alívio da dívida, tão necessárias para o mundo em desenvolvimento, facilitam a fase de recuperação nos países mais pobres ou que apresentam níveis elevados e sustentados de dívida. Da mesma forma, a comunicação adequada dos governos sobre a situação da doença pode evitar um processo de isolamento voluntário e o consequente atraso que isso poderia implicar na reativação das economias. Todos esses elementos apresentam oportunidades para o mundo e para a região. 

Para o mundo, essa é a oportunidade perfeita de aproximar posições, acelerar as mudanças tecnológicas necessárias, aumentar o investimento em pesquisa e desenvolvimento, melhorar os sistemas de saúde e atentar para o impacto ambiental das atividades produtivas. Para os países da região, que parecem estar mais expostos aos efeitos econômicos negativos da pandemia, principalmente em função da queda nos preços das matérias-primas, da desvalorização de suas moedas, da queda nos níveis de exportação e do aumento do desemprego, isso representa uma oportunidade de melhoria propriamente dita, uma vez que a crise atual expôs de maneira inédita os problemas econômicos e sociais que eles carregam. Os níveis de informalidade e pobreza, a dependência de preços estabelecidos nos mercados externos, o déficit comercial intrarregional, os altos níveis de endividamento e as contas públicas combalidas, entre outros elementos, devem ser considerados prioritários, com o objetivo de obter uma melhor integração regional e global e, particularmente, aprender com esta situação para estar melhor preparados para uma crise futura. 

 

André Coutinho, sócio-líder de Clientes e Mercados da KPMG na América do Sul

© 2020 KPMG Auditores Independentes, uma sociedade simples brasileira e firma-membro da rede KPMG de firmas-membro independentes e afiliadas à KPMG International Cooperative (“KPMG International”), uma entidade suíça. Todos os direitos reservados.

conecte-se conosco

 

Quer fazer negócios com a KPMG?

 

loading image Pedido de proposta